sábado, 28 de novembro de 2009

resenha - Paul Thompson

Esta resenha apresentei como trabalho de conclusão de curso da disciplina "Tendências da Historiografia Contemporânea", ministrada no primeiro semestre de 2009 pela professora Lilia, no Latu Senso da PUC-SP.
Paul Thompson - A Voz do Passado - História Oral
Introdução
Trata-se de uma obra multifacetada e de importância vital para todos os que se utilizam de reminiscências, memórias e relatos orais em suas atividades de pesquisa e escrita da história. A História Oral emergiu muito recentemente como possibilidade historiográfica. O primeiro projeto nominalmente ligado a esta corrente surgiu em 1948, nos EUA, liderado pelo professor Allan Nevis, criador do “Oral History Project”. Como toda novidade, causa certo desconforto entre os guardiões das tradições acadêmicas, e precisa provar sua validade para ser aceita plenamente. Ainda há um senso comum que descarta sumariamente a História Oral por considerá-la demasiadamente subjetiva e imprecisa.
Thompson parte justamente deste ponto, porque sabe que é a frente que exige os maiores esforços defensivos. E começa atacando: ao invés de perder tempo tentando provar que as fontes coligidas pelos métodos da história oral são objetivas, afirma e procura provar que a subjetividade é um dado real em todas as fontes históricas. O fato de ser escrito e oficial não torna o documento mais fiel à realidade. O único remédio para lidar com esses desvios é submeter as fontes a um rígido sistema crítico.
O autor demonstra, ao longo da obra, que a História Oral é um método que tem os mesmos problemas e limites de quaiquer outros, mas que apresenta vantagens muito grandes do ponto de vista da abrangência. A história oral permite uma escrita mais democrática, muito ligada ao movimento novo conhecido como “história vista de baixo”. Dá voz aos que, nos documentos tradicionais, não seriam considerados.
Thompson é um guerrilheiro da nova história, é um entusiasta das possibilidades que ela traz ao campo da história. Em muitos pontos, seu trabalho é quase panfletário, e o tom se aproxima, por vezes, daquele empregado nas campanhas publicitárias.
Ao mesmo tempo, ele é um apaixonado defensor da revolução social. Defende que a função de um historiador é contribuir para que se alcance esse ideal. Thompson vê a história como instrumento para agir na sociedade e provocar mudanças. Em suas palavras, “o que se requer é uma história que leve à ação, não para confirmar, mas para mudar o mundo”. Ainda que o leitor mais tradicionalista considere esse arroubos um tanto exagerados, a obra mantém seu valor porque não se resume a isso. Thompson faz uma profunda reflexão sobre o uso de fontes orais, memórias e relatos, apontando suas limitações e possibilidades.
História e Comunidade
Thompson faz uma discussão acerca dos métodos e fontes tradicionalmente empregados na escrita da história, buscando compará-los com aqueles obtidos através da história oral. Nesse processo, ele reafirma sua filiação às diretrizes da Nova História.
A afirmação inicial é um libelo em defesa da importância da história. A necessidade de conhecer e explicar o passado, e através dele compreender melhor o presente e se situar no mundo é descrita como universal e inerente à condição humana. Sempre houve história, em qualquer sociedade, a qualquer tempo.
Infelizmente, por muito tempo ela foi escrita por pessoas ligadas aos grupo dominantes das sociedades, fato que levou a uma seleção muito restrita do que deveria ser registrado e preservado. Era uma história etnocêntrica, elitista e que fechava os olhos para as mulheres e para os menos favorecidos. É a velha crítica que os historiadores da Nova História fazem à historiografia tradicional.
Thompson parte dessa constatação já aceita e estabelecida para reforçar sua defesa da história oral. Segundo ele, mesmo após a ampliação do campo de interesse da história, permaneceram problemas graves, uma vez que as fontes tradicionais refletem a distorção promovida pela historiografia tradicional. Apenas os documentos que interessavam aos propóstitos daquele tipo de história foram preservados. Mesmo que a abordagem seja nova, as fontes permanecem conservadoras. Para o autor, recorrendo-se à história oral pode-se resolver esse problema. Os relatos orais podem preencher essas lacunas deixadas pelas fontes tradicionais.
Thompson vai além, e aponta outras vantagens decorrentes do emprego da história oral. As constatações dele transcendem os campo historiográfico tradicional: a história oral é algo tão revolucionário que suas implicações transbordam da história para outras áreas de atuação humana. Ela promove a remoção das barreiras entre historiadores e público leigo, apaga as fronteiras entre instituições de ensino e comunidade, rompe o distanciamento entre professores e alunos. Uma de suas vertentes tem funções curativas: é a terapia da reminiscência, que ajuda pessoas idosas desalentadas diante da modernidade, recuperando pela memória sua identidade.
Essa expansão impressionante do campo de atuação da história oral, apontada triunfalmente por Thompson, merece uma discussão mais aprofundada, uma vez que esse processo provoca, inveitavelmente, um distanciamento das razões originais do método: alimentar as pesquisas históricas.
Historiadores e história oral
O autor faz um grande passeio pela historiografia, apontando o uso de relatos orais, memórias e reminiscências como fontes de informação histórica. É um importante e minucioso levantamento, uma compilação de todos os que fizeram uso desse tipo de fonte ao longo da história.
Thompson constata que a tradição oral foi a primeira espécie de história, que somente no século XIX deixou de ser considerada pelos historiadores. Diversas sociedades reservavam espaço para a existência de indivíduos que se dedicavam especificamente a memorizar e transmitir os conhecimentos históricos, como os skald na escandinávia, os rajput na Índia e os griot na África ocidental.
Grandes nomes da historiografia antiga e medieval, como Heródoto e Bede, recorreram preferencialmente às fontes orais. No século XVIII, os iluministas fizeram largo uso dos relatos. Voltaire não via diferenças entre as fontes orais e documentais.
Thompson demonstra que, em muitos casos, os testemunhos orais são vistos como mais confiáveis que os documentos escritos. É o que ocorre nos tribunais, onde as testemunhas devem ser ouvidas; essa exigência vem da convicção de que os documentos são mais fáceis de forjar. Os registros contábeis devem ser auditados anualmente, ou seja, lidos em voz alta.
Por que, então, os historiadores relegaram os relatos ao esquecimento? A profissionalização do historiador, no século XIX, contribuiu para isso. Leopold von Ranke foi um grande ator nesse processo. Ele procurou sistematizar a disciplina ao longo de seus 60 anos de atuação acadêmica. Buscava criar um método próprio à história, e passou a desprezar radicalmente tudo o que considerava subjetivo. A ele interessava descobrir as coisas “como realmente foram” (wie es eigentlich gewesen ist). Seu método se espalhou e fez adeptos, como os franceses C.V. Langlois e Charles Seignobos, que afirmavam sem reservas que “se não há documentos, não há história”. De fato, o objetivo foi alcançado: a abordagem documental deu aos historiadores seu método próprio, peculiar, diferenciando-os como especialistas num determinado campo. Como afirma Thompson, essa noção de propriedade profissional era muito importante no século XIX.
Outro motivo para o abandono das fontes orais foi a mudança de atitude dos próprios historiadores em relação a sua realidade social. Restringindo-se aos documentos os historiadores podiam isolar-se socialmente, arrogando uma “neutralidade objetiva” em função da ausência de contato com o mundo.
No começo do século XX essas convicções foram caindo por terra, num processo que acompanhou uma mudança de paradigmas geral e universal. As velhas chaves de compreensão não conseguiam mais explicar o moderno mundo multifacetado, aberto ao relativismo. Os historiadores passaram a aceitar que a diversidade de fontes contribuía para uma aproximação de seus trabalhos com a complexidade do mundo real.
Considerações Finais
Não vivemos em tempos fáceis para historiadores. A trajetória humana sofreu uma radical transformação no decorrer do século XX, num processo tão profundo que tornou obrigatória uma revisão geral na mentalidade e na estrutura do pensamento. Os velhos modelos de explicação histórica, que se pretendiam absolutos e aos quais nada escapava, tornaram-se obsoletos, incapazes de compreender a realidade. Tornaram-se objetos de culto de obstinados militantes, que agarram-se a eles de maneira desesperada, procurando extrair algum sentido de suas desgastadas engrenagens.
Frente a esse mundo complexo e multifacetado, uma abordagem histórica que considere, com método e critério, as informações adquiridas diretamente das testemunhas dos fatos tende a ser mais fiel à realidade.
A obra de Paul Thompson oferece bons argumentos de reflexão para o historiador que se utiliza de tais fontes em seu trabalho.

terça-feira, 17 de novembro de 2009


segunda-feira, 2 de novembro de 2009


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ilha das Flores


Em 1989 um filme de 13 minutos de duração, dirigido por um brasileiro, rodou o mundo chamando atenção para os problemas sócio-econômicos do país. O valor da obra foi oficialmente reconhecido através da concessão de vários prêmios de peso, na Europa, nos EUA e no Brasil. Seu idealizador, Jorge Furtado, apropriando-se das técnicas fílmicas de documentários construiu, através da saga de um tomate, uma narrativa analítica da cisão social e econômica do país. E o fez de maneira tão direta, objetiva e aparentemente simples que a tornou uma das mais usadas fontes de discussão sobre o tema, completando 20 anos de exibição garantida em salas de aula de todo o país. Trata-se, como já deve saber a esta altura o leitor, do curta metragem “Ilha das Flores”.
Qual o segredo do sucesso da obra, que projetou o nome do diretor para fora do Rio Grande do Sul? Que elementos a mantém viva no imaginário dos professores do ensino fundamental e médio, tornando-os seus divulgadores entre as novas gerações? Não há dúvida de que o tema é bastante atrativo, sobretudo num país que acabava de sair de um longo ciclo ditatorial onde tais verdades eram varridas para baixo do tapete. Os aspectos técnicos também ajudaram a alavancar a obra, sua edição eficiente e ao mesmo tempo inovadora, suas inusitadas inserções musicais, como o tema de “O Guarani”, facilmente reconhecível após décadas desgastando-se como vinheta de abertura da famigerada “Hora do Brasil”, ou a narração em tom entre compenetrado e irônico do ator Paulo José, que acentua as passagens impactantes com um forte apelo emocional. Mas creio que o que realmente marcou a obra com o signo do universal foi o recurso discursivo escolhido pelo diretor, que também assinou o roteiro.
“Ilha das Flores” procura fazer um novo olhar sobre os ítens mais básicos do cotidiano, coisas tão elementares que deixaram de ser postas sob o olhar crítico das pessoas, coisas que migraram para a categoria do axioma. Dinheiro, trabalho, família, entre outros, são elementos escrutinados a frio, como que por uma criança, despidos dos destroços que os encobrem e impedem a observação de sua essência. Depois de desnudados, são novamente apresentados ao telespectador através de definições diretas, saídas de dicionários, cínicas, antagonizando com as imagens, explicitando a distância hipócrita entre o dito e o real.
Esse exercício de revisão e ressignificação das coisas mais elementares é extremamente saudável e necessário, e deve fazer parte das atividades rotineiras do historiador. A ciência histórica, seus métodos, teorias e práticas são objeto de extensa discussão, preenchendo milhões de páginas de publicações nas mais diversas línguas. O profissional de história – professor, pesquisador, estudante – vive imerso nesse emaranhado de opiniões, visões, interpretações, teorias, que se acumulam ao longo dos séculos sobre a prática da história. Os conceitos tornam-se familiares, aclara-se na mente do estudioso a estrutura que sustenta toda essa produção, as linhas, correntes, escolas de produção historiográfica. Toda essa rede de elementos intelectuais é capaz de confundir o jovem iniciado, especialmente quando ele se depara com a bizarra estrutura organizacional dos cursos de formação acadêmica, onde a teoria é estudada como se fosse corpo autônomo dissociado de qualquer elemento real.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Você começa aceitando as pequenas coisas. Depois vem as médias e as grandes também. Aceita salas com 40, 45, 50 alunos; aceita receber alunos analfabetos na 5ª série; se acostuma com a falta de recursos, com os livros mal escritos; se acomoda com a sala de informática que não funciona, com a sujeira, com as carteiras depredadas, com o ventilador que não ventila, com o giz que não escreve. Passa a achar normal que, mesmo recebendo as verbas pertinentes, a Prefeitura não envie merenda adequada. Aceita as ausências e omissões... Transige com a ignorância, com a incompetência, com o barulho, com a falta de respeito, com a falta de interesse, com uma escola que se tornou tudo, creche, prisão, reformatório, centro social, clube, e que agora não tem espaço pra ser o que deveria ser, uma escola.
Você vive uma vida limitada, é mal remunerado, é mal visto e mal quisto, tem dezenas de turmas, nem sabe os nomes dos seus alunos, corre de uma ponta da cidade pra outra, almoça em 15 minutos, pega ônibus, trem, gasta as solas dos sapatos, gasta a saúde numa atividade execrada por todos, jornalistas, governadores, estudantes, autoridades educacionais, escritores, filósofos, frentistas de postos de gasolina, donos de mercearias...
Um dia você se cansa, vê que está exausto de tentar remar contra a maré, percebe que as forças contrárias superam as suas. Você se acomoda, para de lutar, de tentar, desiste, desanima. Torna-se um profissional burocrático, aprende a se esquivar dos percalços sacrificando a qualidade de seu trabalho.
E aí, se ainda tiver um pouco de brio, você começa a sentir culpa. Você começa a pensar que a culpa de toda essa tragédia monstruosa, nauseabunda, é sua. O peso do mundo cai em seus ombros. Você passa a se ver como mais um que contribui para a decadência, a queda.
E você é.

Clara dos Anjos - Lima Barreto

Esta descrição do subúrbio carioca, presente em "Clara dos Anjos", serviu para um gostoso trabalho em sala de aula. Mais do que transpirar beleza em cada frase, o trecho deu ensejo a uma boa reflexão sobre o Brasil, de ontem e de hoje...

“O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central.
Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando encontra colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as suas azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes. Passamos por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotam ainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco, que, para ser alcançado, torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo; andamos mais e levantamos o olhar para um canto do horizonte e lá vemos, em cima de uma elevação, um ou mais barracões, para os quais não topamos logo da primeira vista com a ladeira de acesso.
Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para essas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato.
Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes. Nelas, há quase sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto. Toda essa população, pobríssima, vive sob a ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.
Afastando-nos do eixo da zona suburbana, logo o aspecto das ruas muda. Não há mais gradis de ferros, nem casas com tendências aristocráticas: há o barracão, a choça e uma ou outra casa que tal. Tudo isto muito espaçado e separado; entretanto, encontram-se, por vezes, "correres" de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chamamos "avenida".
As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro. De manhã até à noite, ficam povoadas de toda a espécie de pequenos animais domésticos: galinhas, patos, marrecos, cabritos, carneiros e porcos, sem esquecer os cães, que, com todos aqueles, fraternizam.
Quando chega a tardinha, de cada portão se ouve o "toque de reunir": "Mimoso"! É um bode que a dona chama. "Sereia"! É uma leitoa que uma criança faz entrar em casa; e assim por diante.
Carneiros, cabritos, marrecos, galinhas, perus — tudo entra pela porta principal, atravessa a casa toda e vai se recolher ao quintalejo aos fundos.
Se acontece faltar um dos seus "bichos", a dona da casa faz um barulho de todos os diabos, descompõe os filhos e filhas, atribui o furto à vizinha tal. Esta vem a saber, e eis um bate-boca formado, que às vezes desanda em pugilato entre os maridos.
A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.
O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes. Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro, Um "belchior" de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.
Em geral, essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.
Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.
Nem lhes facilita a morte, isto é, o acesso aos cemitérios locais.
Para o de Inhaúma, procurado por uma vasta zona suburbana, os caminhos são maus, e pior do que isto: dão voltas inúteis, que poderiam ser evitadas sem grandes despesas. Os enterros da gente mais pobre são feitos a pé, e é fácil imaginar como chegam, os que carregam o morto, no campo-santo municipal. Quem passa por aqueles caminhos, quase sempre topa com um. Os de "anjos" são carregados por moças e os destas também pelas da sua idade. Não há, para elas, nenhuma toilette especial. Levam a mesma que para os bailes e mafuás; e lá vão de rosa, de azul-celeste, de branco, carregando a pobre amiga, debaixo de um sol inclemente, e respirando uma poeira de sufocar; quando chove, ou choveu recentemente, carregam o caixão aos saltos, para evitar atoleiros e poças d'água.
Os de adultos são carregados por adultos. Nestes, porém, há sempre uma modificação do indumento dos que acompanham. Os cavalheiros procuram roupas escuras, se não pretas; mas, às vezes, surge o escândalo da sua calça branca. Vão muito pouco tristes e, em cada venda que passam, "quebram o corpo", isto é, bebem uma boa dose de parati. Ao chegarem ao cemitério, aquelas cabeças não regulam bem, mas o defunto é enterrado.
Houve, porém, uma ocasião, que o corpo não chegou a seu destino. Beberam tanto, que o esqueceram no caminho. Cada qual que saía da venda, olhava o caixão e dizia: Eles que estão lá dentro, que o carreguem. Chegaram ao cemitério e deram por falta do defunto. "Mas não era você que o vinha carregando?" — perguntava um. "Era você" — respondia o outro; e, assim, cada um empurrava a culpa para o outro. Estavam cansadíssimos e semi-embriagados. Resolveram alugar uma carroça e ir buscar o camarada falecido, que já tinha duas velas piedosas a arder-lhe à cabeceira. E o pobre homem, que devia receber dos amigos aquela tocante homenagem, dos camaradas levarem-no a pé ao cemitério, só a recebeu a meio, pois, o resto do caminho para a última morada, ele a fez graças aos esforços de dois burros, que estavam habituados a puxar carga bem diferente e muito menos respeitável.
Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam. Pelas primeiras horas da manhã, de todas aquelas bibocas, alforjas, trilhos, morros, travessas, grotas, ruas, sai gente, que se encaminha para a estação mais próxima; alguns, morando mais longe, em Inhaúma, em Caxambi, em Jacarepaguá, perdem amor a alguns níqueis e tomam bondes que chegam cheios às estações. Esse movimento dura até às dez horas da manhã e há toda uma população de certo ponto da cidade no número dos que nele tomam parte. São operários, pequenos empregados, militares de todas as patentes, inferiores de milícias prestantes, funcionários públicos e gente que, apesar de honesta, vive de pequenas transações, do dia a dia, em que ganham penosamente alguns mil-réis. O subúrbio é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes dêem alguma coisa, para o sustento seu e dos filhos.
Nessas horas, as estações se enchem e os trens descem cheios. Mais cheios, porém, descem os que vêm do limite do Distrito com o Estado do Rio. Esses são os expressos. Há gente por toda a parte. O interior dos carros está apinhado e os vãos entre eles como que trazem quase a metade da lotação de um deles. Muitos viajam com um pé num carro e o outro no imediato, agarrando-se com as mãos às grades das plataformas. Outros descem para a cidade sentados na escada de acesso para o interior do vagão; e alguns, mais ousados, dependurados no corrimão de ferro, com um único pé no estribo do veículo.
Toda essa gente que vai morar para as bandas de Maxambomba e adjacências, só é levada a isso pela relativa modicidade do aluguel de casa. Aquela zona não lhes oferece outra vantagem. Tudo é tão caro como no subúrbio, propriamente. Não há água, ou, onde há, é ainda nos lugarejos do Distrito Federal que o governo federal caridosamente supre em algumas bicas públicas; não há esgotos; não há médicos, não há farmácias. Ainda dentro do Rio de Janeiro, há algumas estradas construídas pela Prefeitura, que se podem considerar como tal; mas, logo que se chega ao Estado, tudo falta, nem nada há embrionário.
O viajante que se detém um pouco a olhar aqueles campos de vegetação rala e amarelada, aqueles morros escalavrados, cobertos de intrincados carrascais, onde pasta um gado magro e ossudo, fica confrangido e triste. Não há nenhuma cultura; as árvores de porte são raras;
nas casas, é raro uma laranjeira virente, nem um mamoeiro semi-espontâneo desce-lhes à entrada.
Os córregos são em geral vales de lama pútrida, que, quando chegam as grandes chuvas, se transformam em torrentes, a carregar os mais nauseabundos detritos. A tabatinga impermeável, o barro compacto e a falta d'água não permitem a existência de hortas; e um repolho é lá mais raro que na avenida Central.
O Rio de Janeiro, que tem, na fronte, na parte anterior, um tão lindo diadema de montanhas e árvores, não consegue fazê-lo coroa a cingi-lo todo em roda. A parte posterior, como se vê, não chega a ser um neobarbante que prenda dignamente o diadema que lhe cinge a testa olímpica...”

Colhido em http://www.culturabrasil.pro.br/zip/claradosanjos.pdf